Cor de rosa

*conto originalmente publicado na Revista Traços, em versão reduzida. Aqui está a versão integral.

 

Penso que é uma coincidência terrível. Que essa moça que me estende os braços com delicadeza e mostra a última grande novidade em babás eletrônicas se chame Virgínia. Eu li na plaquinha meticulosa, minúscula, que lhe colocaram agarrada à gola. Como se alguém nesse empório de luxos iniciais se importasse com os nomes de quem está ali apenas para servir ideias. Palavras de encorajamento em bandejas de prata. Eu digo que ficarei com o modelo mais barato, embora tenhamos dinheiro. Não sei o porquê.

Eles são treinados para não perguntar de quantas semanas estamos, se não queremos falar. Virgínia percebe a pressa, então desliza para o corredor do peito. Tetas reluzentes, penduradas nas paredes, dão as proporções do molde. Substitutas de silicone, com leite quentinho, de verdade, jorrando pelas veias de plástico. São 100% esterilizáveis, garante, e absorve todo o seu cheiro no primeiro uso. Se encomendar o leite direto de uma ama, o bebê nem vai perceber.

Eu passo direto, Virgínia entende. Inclina a cabeça com um sorriso falso. Ativista, estrangeira em próprio solo, posso ouvi-la computando. Um tipo de mãe rara.

Tudo ali é limpo e esterilizável. Lembro que o meu marido, em casa, pediu que eu só não comprasse o berço. Ele faz questão de construir um. Madeira rara, importada. Ele quer relembrar os tempos em que era um homem brutal, do campo, e derrubava árvores para moldar seus móveis. Agora não temos mais árvores para derrubar. E ele está contente por se lembrar de como era. Às vezes ele percorre o meu corpo dedilhando asperezas. E eu tenho certeza de que me imagina em lascas.

Virgínia estende os olhos de caramelo para a extensão da minha barriga, o meridiano medido a partir do meu umbigo, parece a ponto de explodir de curiosidade. Eu dei pouquíssimas informações para embasar nosso itinerário. Só disse que era uma menina, mas não queria que isso interferisse nas ofertas. Não queria nada que fosse demasiadamente cor de rosa.

Rosa tem cheiro de vômito.

Eu também não disse que ela chega em agosto.

 

Quiseram que eu descrevesse como era a experiência, com todas essas coisas que só eu sei sentir, e eu disse que tem gosto de sangue. Toda a coisa de carregar um outro ser humano dentro de você. Faz seu corpo ferver até a temperatura de um bule quente de água no fogo alto. Como a ferrugem que desgarra das paredes de ferro, lentamente, e a pressão que apita em algum lugar dentro da cabeça. Você parece que vai explodir de amor, até o momento em que realmente explode.

Eu posso falar dessas coisas agora, porque sou uma mulher respeitável, e estou autorizada a ter filhos.

“Eu conheci uma outra Virgínia uma vez” – não consigo evitar de dizer à mocinha, enquanto ela fecha a compra e me entrega sacolas de pano.

“É mesmo?”, ela pergunta. Alegremente, dobrando-se em uma melodia de falsete, desaparecendo pela janela (é mentira que está feliz ali).

 Sim. Ela não podia ter filhos.

 

Faz tempo. Éramos todas meninas do campo, matutas, mas eu sabia que queria ser mais, eu havia nascido para me descolar daquele horizonte empoeirado e laranja. Venenoso. O ar me rasgava os pulmões quando inventava de respirar os dias. Não perdi tempo quando me disseram o roteiro. Se você sair mais cedo, e subir no caminhão verde-oliva às cinco da manhã, em vez de te levar para colher feijão, podem te dar um emprego na clínica.

Não fiz perguntas, não era isso que cabia a nós. Meninas do centro. Tirei os sapatos, passei pela inspeção de piolhos, deixei que avaliassem com instrumentos gelados a distância perfeita entre os meus olhos, que esticassem a minha língua em busca de um sinal de infecção, e depois solicitassem que eu tomasse um banho, o mais gelado possível, e vestisse uma camisola de hospital. A água gelada me aperta os ossos, eu murmurei, e eles entenderam que eu era especial o suficiente.

Eu tinha longos cabelos pretos e cacheados, nessa época. Boca de avelã, uma beleza agreste, de deserto fabricado. Meus dentes não eram bons, mas tanto faz, porque eles pediam para você não sorrir. Se fosse possível.

Quando me disseram que eu tinha sido selecionada e me colocaram para esperar em uma salinha de poltronas peludas, tive medo. Medo, nessa época, era como engolir uma pedra de cal. Doía, no começo, depois se diluía, virava um pó branco, revestindo o coração de coisas ácidas. Ela chegou, caminhando como se também estivesse suficientemente nervosa. Mas era mais velha, quinze anos, e mais segura que eu.

“Eles disseram que você se parece comigo, estou lisonjeada”. Ela disse. Meu nome é Virgínia.

Ela não tinha envelhecido bem. Talvez a preocupação. Tinha no rosto uma placa de vincos e sulcos, a idade era um trator de colheita. Eu ia fazendo essas anotações mentais, toda tímida, depois ela pediu que eu partilhasse. Porque queria absolutamente tudo de mim.

Queria me ouvir falar da roça onde tinha crescido, dos meus irmãos desgarrados, os mortos em combate. Dos campos de feijão. Das coisas que eu sentia no céu da boca, mas não eram de comer.

“Adoraria que a criança mantivesse a sinestesia”, ouvi dizer que ela pediu ao médico.

Virgínia era cativante. Não era bonita como eu, mas logo percebi porque tinha sido selecionada: era sua versão mais jovem, mais bem acabada, porém menos inteligente. Ela era culta como os anos faziam valer. Lia um trilhão de livros e me falava de todos eles em um tom sério, professoral, porque queria que eu absorvesse a cultura. Eu amei tocar a literatura. As histórias de Jane Austen tinham cheiro de armários compridos e gosto de chá. Clarice era como um fio de aço afiado, passando entre os dentes. Alguns escritores me apunhalavam na nuca. Outros me deixavam com o coração em polvorosa.

Eu nunca soube onde ela morava, nem conheci o seu marido. Apenas o recebi em forma de líquido, milhões e milhões de pequenas lembranças dele nadando para dentro de mim após o apertar da seringa. Achei vergonhoso ter que abrir as pernas, mas o médico era o mesmo de sempre. Ele disse que eu era corajosa.

Todas as terças-feiras, eu e ela nos encontrávamos na cidade. Era importante esse contato, mas eu podia ter rompido, se quisesse, se não me sentisse bem. Como fazer isso, se Virgínia tinha esse jeito irresistível de me ensinar sobre tudo? Palestrando, lentamente, sobre as coisas que a minha educação não cobria. Mostrando que éramos muito diferentes, afinal de contas. E que ela sofria por não ter dentro de si um saco de carne capaz de abrigar outros mundos.

Um dia, eu devia estar no terceiro mês, me deu um telefone. É para que nós duas possamos nos falar, ela explicou. Eu tinha vergonha das minhas mensagens com a ortografia errada, mas ela dizia que não tinha problema, que via beleza nas minhas lacunas.

Virgínia sorridente. Amiga.

Por favor, Daniela. Me escreva se precisar de qualquer coisa.

Então eu escrevi. Depois daquela consulta em que fomos juntas, mas acabei por ser colocada em uma sala separada, e com auxílio de um alto-falante fizeram o coração do meu bebê disparar na sala ao lado. Para que Virgínia e o marido tivessem esse momento. O médico nem mesmo olhou para mim, enquanto transmitia o recado em ondas invisíveis. Eu posso saber o que é, sussurrei, agarrando-lhe o punho peludo. Ele não podia dizer, não estava autorizado, mas teve pena: é uma menina.

Eu vou te muita sodade dela, escrevi para Virgínia, naquela noite. Eu quero conhese ela.

Jamais recebi uma resposta.

 

Os encontros começaram a rarear durante a etapa final. Parecia que, lentamente, Virgínia começava a cortar o cordão umbilical que nos ligava. Em uma das últimas vezes em que nos vimos, uma sombra escura sobre as nossas cabeças, um gosto pujante de lama na garganta, ela tirou uma pequena paleta de cores da bolsa. Vários tons de rosa. É para o quartinho dela, sussurrou, como se partilhasse um segredo que eu não devesse saber.

Não consegui responder. Imaginei que horrendas aquelas paredes, refletindo o sol ao contrário e maquinando um futuro pré-estabelecido. Uma princesinha concebida para o estranho ritual da normalidade. E vomitei na lixeira a caminho da estação de metrô.

Eu não me lembro muito do fim. Houve sangue, é claro, um filete obscuro que começou manchando a calcinha e de repente jorrava de mim como se expulsasse impurezas. Então a dor, uma ligação dos meus pais ao médico, me levaram em um carro com estofado cheiroso. Por meio de um tubo de oxigênio eu tentava respirar, enquanto repetiam que não era a hora, e verificavam apressados o tamanho da minha fenda.

Eu temia perder o dinheiro. Era só isso que eu temia.

Virgínia chegou primeiro, eu pude vê-la de relance, cruzando a porta e analisando minha barriga que se desmoronava. Em pânico. Vai ficar tudo bem, Daniela, talvez ela tivesse dito. Ou talvez ela tivesse rasgado um cheque para me ameaçar pela pressa. Não era a hora.

Paredes com gosto de amônia. Uma dose de anestesia local para reduzir o peso da lombar. As mãos do médico dentro de mim, ríspidas, remexendo minhas extremidades. Não deixaram que eu enxergasse alguma coisa, mas pelo pano translúcido que improvisaram eu a vi. Um ratinho esmigalhado com rosto vermelho que berrava, berrava alto. Seu choro que me rasgava os braços. Lembrei-me do som de um sino alto, reverberando pela eternidade.

Às vezes eu ainda a escuto chorar. Quando meu marido faz bagunça em casa e remexe nos pratos. Quando deixa um tilintar de talheres ressoar pela sala. Todo ruído agudo, metálico, me dói nos cantos da boca. E eu sinto uma saudade desesperada da minha filha.

Mas todas essas coisas ficaram no passado, é claro, porque o contrato estava inteiro e bem vigente. Vieram buscar um pouco de leite em garrafas de vidro e depois partiram, sorridentes, felizes pela minha contribuição. Recebi trinta e cinco por cento do acordo, e já foi um dinheiro significativo. O suficiente para deixar a roça e os campos de feijão. Para alugar um quartinho na cidade, ingressar na faculdade de direito, vestir-me bem e tornar-me um ser humano respeitável. Com o tempo, a gente até se esquece. Eu sei porque nunca contei ao meu marido. Se não contei, não é mentira.

 

Não sei se conseguirei amar essa nova menina. Não queria tê-la, mas ele insistiu. Disse que não se sentiria bem se partisse da vida sem deixar um pedaço seu. Eu já tenho um pedaço meu espalhado em algum lugar, com oito anos de existência miúda, mas é melhor deixar quieto.

Penso nela. Se toma sorvete com o nariz franzido e sente o corpo congelar. Se a chuva tem cheiro de terra. Se odeia tocar nas coisas geladas porque sente tudo nos ossos. Eu me pergunto se ela é uma menina esperta que sonha com texturas de veludo. Se faz desenhos para tentar explicar o jeito como ela é tudo ao mesmo tempo, uma experiência sensorial, e mostra aos amiguinhos para se gabar de poder dizer que provou o sol. Eu me pergunto.

Delivery boy

Vinho texturizado, macarrão pronto, almôndegas congeladas, uma refeição para dois. Ele já sabe que está levando um jantar romântico e pedala mais rápido. Avisaram que o elevador do prédio não funcionava, então foi de escadas, chegou com os joelhos latejando de dor, a moça com cara de rato pegou o pacote sem sorrir e não avaliou o serviço. Provavelmente, não estava apaixonada o suficiente.

Quando pediam fraldas e leite em pó, à meia-noite de um sábado, ele já sabia que eram pais relapsos ou muito cansados, então tratava de ser melhor, passar no posto de recarga elétrica com entusiasmo e comprar um chocolate. Explodia de estrelas e era bem recompensado. Quer saber como fazer sucesso neste ramo? Seja humano.

Claro que não era assim o tempo todo. Uma máquina de amenidades. Algumas coisas o deixavam bastante irritado. Gente que pedia comida mexicana – ele detestava o cheiro – e depois cancelava. Não dava nem para reaproveitar, comer a porcaria, distribuía aos vizinhos. E gente que pedia gente, carne barata, que ele guiava em seu tuk-tuk com um pesar estampado no rosto, não conseguia disfarçar.

“Moça, a senhora é tão bonita. Podia ter uma vida melhor.”

Elas riam. Davam um beijo na bochecha furada dele e diziam que não havia vida melhor. E iam embora, equilibristas, em suas patas altas de cristal.

Quando ele estava cansado das entregas e resolvia ser chofer, era sempre uma curiosidade. Como é que você consegue? É muito cansativo? Nossa, seu corpo deve ser mega tonificado. E você vai saber o endereço certinho? Você vai saber ler? Falavam alto, como se ele fosse surdo (e olha que ainda tinha orelhas). Desistia depois de algumas voltas pelo mesmo quarteirão. Estava cansado da mesma curiosidade natural, de perguntas sobre o que-é-que-aconteceu-com-sua-cabeça. Quando só precisava entregar alguma coisa – desde que não fossem coisas vivas – usava um capacete, ninguém reparava que tinha um crânio esmagado.

Não que ele achasse que as pessoas fossem culpadas por isso. Elas não sabiam da verdade sobre sua dita deficiência, então era inútil esperar que entendessem. Quando Rafael era criança, achavam que ele era burro. Que seria burro para sempre. Eu se fosse a senhora não perdia tempo, mãezinha – chegou a dizer um pediatra pouco sensível. Diagnóstico: retardo mental.

Mas a mãe de Rafael não desistiria. Ela que tinha sido uma das primeiras a ser afetada pela praga que se espalhou pelo ar. A mãe que foi ficando febril, ainda na época de barriguda. Picada por um mosquito, quem sabe, ou apenas doente de alguma coisa que você come, porque sente fome até perder o juízo, e logo em seguida percebe que você foi um erro comer. Ninguém conseguia lutar contra inimigos invisíveis.

Mesmo que o menino tivesse saído estragado e feio, a mãe o amava até os dentes. E acreditava que não era um pedacinho a menos de cérebro que ia fazê-lo menor. A mãe dizia assim para ele, baixinho: “você vai ser homem inteligente e bondoso. Porque se Deus te tirou alguma coisa, quando te podou a nuca, foi a maldade do mundo”.

 

Rafael não era burro, nem retardado, mas sabia ser diferente. Porque não tinha mesmo raiva, apesar de se irritar com comida mexicana e com as moças que vendiam suas coisas mais bonitas. E porque gostava de contar cada pedalada que dava, todos os dias, desde que tinha se candidatado àquele emprego por não ter sido aceito em mais nenhum. Trezentas e cinquenta e cinco mil pedaladas em fogo cruzado. Ele não tinha perdido um só endereço, desde o começo.

Também, por essa ansiedade de saber logo o que vinha pela frente, ficava analisando as mercadorias. O povo gostava muito de bebida quando estava chegando perto do fim da semana. Cigarros, também, pacotes e mais pacotes de um fumo enjoativo, que ele levava separados em uma sacolinha própria. Remédios para dormir eram uma tendência quando esse mesmo povo inventava de trabalhar demais.

Ele gostava da solidão das ruas. De não haver mais tantos carros – lembra como era, aquele cheiro pavoroso de fumaça queimada, grudando nos cantos internos da gente? – de não haver pedestres que ele pudesse atropelar com seu olho ruim, que só não era muito bom porque, dizendo a mãe, era conectado com  a parte da cabeça que faltava. Todo mundo estava bem confortável fazendo o que faziam protegidos em suas casinhas de isopor e alumínio. Longe do sol, da estática, da lama, do ar infectado. Não era uma vida ruim quando você se acostumava.

 Rafael sabia de casos, por alto, sobre as pessoas que permaneciam dentro de casa por puro medo. Não apenas porque tinham todas as coisas ao alcance das mãos, muitas horas de entretenimento e muitos rafaéis para levar o que quer que precisassem; mas por puro pavor de que ainda não fosse seguro. Tinham um nome para isso, mas nomes era um negócio que ele só podia guardar na parte da cabeça que não tinha. Quando conheceu a Morana foi engraçado.

 

O pacote estava muito bem selado porque o pedido foi feito diretamente ao restaurante, mas Rafael sentia cheiro de fritura, portanto teve poucas considerações a fazer, exceto de que se tratava de alguém com hábitos pouco saudáveis. Quando ela abriu a porta, o choque o atingiu bem no meio das omoplatas. Uma mulher gigantesca, isso era. De proporções elefantícias, enormes mãos redondas com unhas pintadas a esmalte, um cheiro fresco de hidratante nas dobras de carne. Rafael entregou a sacola com absoluto fascínio, mas os olhos dela estavam pousados no chão. Um obrigado automático, quase de máquina, ressoou da garganta, enquanto ela gentilmente fechava a porta.

Tinha horror aos outros seres humanos, a Morana, e era dessas que vivia dentro de casa há dezenove de seus trinta e cinco anos. Confinada no último andar do prédio elegante. Rafael jogou conversa fora com o porteiro que, feliz pela companhia no saguão silencioso, fofocou alguns detalhes: era uma coitada. Órfã de mãe há pouco menos de um mês. A mãe que fazia tudo por ela, inclusive cozinhar.

“Tenho certeza de que o peso dela ficou ainda maior depois que a velha morreu”, o porteiro piscou.

Rafael teve certeza de que queria voltar.

 E ele voltou. Pelo menos quatro vezes por semana. Aguardava com ansiedade o momento em que a mulher abriria porta e ele teria a oportunidade de vislumbrá-la outra vez em toda sua glória, todos os seus quase cento e cinquenta quilos. Morana começou a perceber que o entregador parecia muito empolgado e se sentiu constrangida com aquela atenção enviesada. Um dia, ele deixou um bilhete dentro do pacote de batatas fritas hidrogenadas. Precisou de muita coragem para fazê-lo.

O que está escrito nesse bilhete é algo que Rafael pensou muito, com todas as suas lacunas pessoais, para escrever. Passou, na verdade, pelo menos uma semana inteira pensando. E chegou à conclusão de que precisava dizer a verdade, mas era uma verdade que Morana nunca tinha escutado (portanto achou que fosse mentira). Dizia: “moça, você é linda demais”.

Morana parou de convocá-lo. Tinha certeza que ele estava caçoando dela. Chorou de humilhação, no banheiro, enquanto penteava os cabelos, mas tarde demais teve fome, e precisou de alguém durante a madrugada. O serviço dele era uma coisa fácil de acionar. Nesse dia, seja por dúvida ou ansiedade, ela deixou a porta aberta mesmo depois de pegar a sacola lacrada, então ele esteve à vontade para tirar o capacete. E quando viu que faltava-lhe metade do crânio, que ele estava além dos retratos do mundo como ela, sorriu e deixou-o entrar.

Conversariam sobre isso nos dias seguintes. Porque, além de bonita, Morana era uma moça espirituosa, e Rafael sabia disso mesmo sem saber. Ela dizia: somos como um jogo de tetris que não se encaixa direto. Arestas e quinas arredondadas, espaços que faltam e outros que se empilham. Ele não entendia metade do que ela falava, ela que era pessoa culta com hábito de ler livros de verdade, mas adorava ouvir o som das palavras desconhecidas se embolando no ar. E sorria, porque era assim que a mãe tinha ensinado a fazer, quando ele não entendesse os outros. Um sorriso era passaporte para a tranquilidade.

Rafael, apesar de ser homem feito, não tinha experiências sexuais. Tinha um órgão genital plenamente ativo e inteiro, é certo, mas suas primeiras aventuras pelo terreno das sensações eram apenas solitárias. O mesmo valia para Morana. Demoraria muito até qualquer um deles ter uma atitude. Ele só lhe deu um beijo, por exemplo, na quarta semana em que a visitou para conversar. Um estalo na boca cheia de batom. Ignoraram o fato, corados como crianças pegas no flagra.

Na maior parte do tempo, conversavam. Morana comentava sobre as coisas que a mantinham segura, dentro de casa. Além de falar português engraçado, falava inglês, alemão e francês; tocava piano, violão e era viciada em filmes antigos sobre apocalipses alternativos. Trabalhava como programadora de computadores a distância, motivo pelo qual nunca precisava mesmo colocar os pés fora de sua gaiola. Ela que dizia, assim, que era como um pássaro inchado. Mas não cantava, só esperava morrer.

Rafael gostava quando ela contava sobre a mãe falecida, porque ele também tinha muitas histórias de mãe para contar. Mas Morana tinha assuntos mal resolvidos com a sua, não era muito legal de saber que uma tinha precisado morrer para a outra sentir que fazia-lhe falta. A mãe de Morana tinha sido mandona, séria, artista de um tempo que não existia mais. Mas também uma cozinheira de mão cheia e tinha morrido estatelada na cozinha, com os olhos arregalados para o forno, vigiando o pão que não terminava de assar.

 “Ela amava fazer pão”, Morana explicou. “Ficava o dia todo amassando ali os seus pãezinhos de minuto. Morreu como queria. As mãos sujas de farinha”.

“Adoro pão, queria provar”, Rafael comentava, por delicadeza.

“Ela também era gorda. Mas era diferente de mim. Ela tinha um encanto.”

Rafael sempre dizia que Morana tinha um encanto, mas ela não concordava. 

A última vez em que ela havia saído de casa tinha sido há tanto tempo que parecia mentira. Tratava-se de um exercício de combate a incêndios. Comuns depois que os prédios superaquecidos pegavam fogo como papel e gente morria com os ossos carbonizados, empretecidos; gente que morria enquanto sonhava. Soaram um alarme, ela desceu contrariada depois de ser despertada pela mãe (ainda viva), vestindo seu pijama de numeração extravagante e calçando pantufas. Pesava menos, podia correr mais, e naquela noite quase sufocou.

“Fiquei muito puta quando descobri que era só uma simulação”, ela contou. Os vizinhos nunca tinham visto seu rosto. Na calçada, ela foi o assunto.

Rafael queria levá-la para conhecer sua própria mãe. Mas o jeito como ela reagiu a essa mera indicação deixou-o triste. Não que ela tivesse gritado ou descartado a ideia de começo, com um golpe de terror. Apenas se encolheu feito concha, os olhos vidrados fixados na parede e um silêncio constrangedor entre os dentes. E ele soube que era hora de ir embora, que a visita estava encerrada, e que esse assunto jamais voltaria à margem das discussões.

No segundo mês em que se viam com tanta regularidade que poderiam ser amigos de uma vida inteira, Morana pediu a Rafael que tirasse sua virgindade. Assim, sem meio termos. Ele ficou roxo de vergonha, mas deliciado com a ideia.

“Hoje?”, perguntou.

“Não, hoje não. Tem que ser em um dia especial.”

E ele prometeu que a levaria para jantar antes. Se ela não queria sair, ele arranjaria um jeito de levar o restaurante até ela. Como sempre fazia, como nunca tinha deixado de fazer. Combinou às sete horas de um sábado, quando, encerradas as corridas do dia, ele tomaria um banho, vestiria sua melhor roupa e compraria uma refeição apropriada ao romance. Como almôndegas ao molho de tomate e vinho texturizado.

Morana esperou, com uma expectativa que fazia o peito ribombar de suspense. Também vestiu sua melhor roupa, um vestido extragrande adquirido em loja online que a deixou bonita, bonita mesmo, a ponto de se sentir de verdade. Passou perfume e calçou sapatos que machucavam seus pés (mas não fazia mal, porque estaria em casa). Quando o relógio na cabeceira da cama (feita, com lençóis igualmente novos) indicou seis horas, achou que fosse morrer de agonia e resolveu produzir cachos no cabelo liso.

Às seis e meia, arriscou uma olhada pela janela forrada com cortinas à prova de sol, para ver se ele já vinha. Às seis e cinquenta, respirou fundo diante da porta, preparada para abrir antes que ele tocasse a campainha. Às sete e meia, imaginou que o trânsito provavelmente estava anormal naquele dia.

Às oito, ligou duas vezes para o celular, e ninguém atendeu. Às oito e meia, monitorou o GPS do tuk-tuk dele no aplicativo de entregas (permanecia com indicação estagnada, de inativo). Às nove, espumando de tristeza, deu-se conta de que ele a havia abandonado, e odiou todos os homens. Às nove e meia, ligou novamente.

Desta vez, uma mulher chorosa atendeu. “Rafael se acidentou” – ela respondeu, antes de soluçar desesperadamente. Ele que olhava sempre para os lados antes de cruzar as ruas com seu tuk-tuk. Que olhava duas vezes para compensar a falta de um olho bom.

“Acho que ele se descuidou. Acho que ele estava distraído.”

“Mas onde ele está agora?” – Morana perguntou à mulher, imaginando que se tratava, provavelmente, da mãe de quem muito ouvia falar. E recebeu o endereço de um hospital distante, periférico, onde só se tratavam os pobres e os desenganados, os que não podiam se refugiar. Desligou o telefone com o corpo metralhado de medo.

Eram quase dez horas. Às dez em ponto, Morana soltou um grito de dor, porque não sabia mesmo o que fazer. Ou sabia, mas não tinha como. Não tinha como. Às dez e vinte, viu no espelho o rosto de outra pessoa, uma pessoa melhor, e entendeu que era hora. Então apanhou a bolsa, um pouco de dinheiro, o escapulário roto herdado da mãe, óculos noturnos, sapatos mais confortáveis, um guarda-chuva para emergências, uma coragem desconhecida.

Às dez e meia,  saiu de casa.