Geladeira

Alimentava sonho antigo de comprar o único artigo que fazia falta na cozinha. Não era pelo luxo, era pela utilidade. Errava o caminho do trabalho só para admirar pela vitrine, ela crescendo impecável de tão branquinha, o motor apagado no canto, dois compartimentos para abrigar as diferenças – imagina só, que beleza colocar o frango para congelar de um lado e o leite dos meninos em outro. Custava demais. Custava quatro meses e cinco dias de faxina. Vinte casas, quase cem cômodos, o desafio cabia. Feliz foi o dia em que chegou com a bolsa atolada de dinheiro, despejou no balcão do vendedor aturdido e disse: me vê aquela geladeira, não pode ser outra, tem que ser aquela ali.

Para ver a aquisição só chamou a irmã, porque as amigas eram todas umas invejosas. Felícia não era muito de casa, mas aprovou seu sentimentalismo. Tomaram café em silêncio, mirando-se pela textura espelhada. Eu vou te confessar uma coisa, Maria sussurrava, segurando a xícara debaixo do queixo com as mãos enrugadas: de noite, quando vou dormir, paro aqui para ficar ouvindo o zunido, não é estranho? Parece que estou até tendo um troço pela geladeira.

Felícia compreendia. Maria tinha um orgulho comovente das batalhas que podia travar e amava a beleza das vitórias. Nunca tinha sido das letras, entretanto trabalhava em dobro para compensar a falta de estudo. De tanto alvejar ladrilhos estava perdendo a sensibilidade dos dedos, mas disfarçava fazendo as unhas. A casa era um brinco. Único erro dela, de heroína travestida de irmã mais velha, tinha sido casar com um porco, por quem cabia essa devoção eterna. Uma curva sentimental que estragava o sucesso.

As mulheres, que desgraçadas. Sempre se vendiam por tão pouco amor.

Não a Felícia. Ela, de cabelo joãozinho e calças de cós – última moda em um continente distante, de países que mais pareciam ilhas – não se casaria nunca. Já havia tido maus exemplos suficientes para uma vida inteira de desamparo. O namorado, Romildo, desistira da missão. Fazia pouco que havia ido embora, com alarde em plena madrugada para que ela não tivesse o desplante de dormir, levando a escova de dentes, o barbeador e o gato. Covardia levar o gato. Bom que não durou um dia: ele não tinha mesmo paciência para comprar leite.

Ernesto nunca iria embora. Ficaria, enterrado na poltrona com o controle remoto na mão à espera do jogo, arrotando indecências pelo nariz e gritando seu incômodo com o calor e uma sujeira inexistente. Maria estava perdida por isso: porque o marido, a quem amava de um jeito incompreensível, ficaria a vida inteira.

****

Às vezes discutiam pela incompatibilidade de naturezas. Maria, estrebuchada, reclamava da arrogância de Felícia, o inconformismo. Não gostava quando a irmã, acolhedora e sincera, inventava de criticar seu homem. Você tem que entender, bradava, a espátula de fritar bife tremendo na mão calejada, que nem todo mundo é assim independente que nem você. Felícia tremia de raiva, batia a porta, o importante é que não demorava para que ficasse tudo bem, os desapontamentos levados para longe ao menor sinal de perdão. Como um rio e um oceano, que corriam lado a lado, respeitosamente, cruzando-se em afluentes leves de espumas.

****

Ela disse que não sabia o que tinha acontecido. No espaço onde a conquista nova havia passado a reinar, ainda nem poeira tinha juntado. A tomada com uma manchinha amarelada de violência. Maria ajoelhou-se, aos prantos. Ligou para Felícia: roubaram minha geladeira.

A irmã não acreditou na história de que os gatunos eram assim tão bandidos que haviam levado até mesmo as carnes. Os vidros vazios de maionese que ela só guardava para ter onde beber água depois. Um saque precioso na cozinha minúscula e esmeralda. Felícia era mais esperta.

Disse a Maria que falaria com um amigo PM, que daria um jeito. Disse que resolveria, e resolveu. Não foi direto ao embate com Ernesto. Preferiu sondar pelas fontes mais confiáveis: o dono do boteco, um outro amigo bêbado com bafo de insônia que tinha por ela uma queda sem fim. Todo mundo sabia, é claro, da outra. A outra dona com quem o marido de Maria se escondia, entrincheirado entre pernas e braços, dois bairros abaixo. Apenas dois bairros distante. O porco não tinha nem a prudência de se esbaldar longe de casa.

Nessa época as pequenas residências não eram resguardadas por muros, havia pouco motivo para inseguranças. De forma que Felícia foi marchando resoluta pelas ervas daninhas do quintal alheio, chutando o ar para que um cachorro magricela não resolvesse se aproximar. Bateu palmas, a campainha eterna dos estranhos. A mulher que espiou pela janela e veio arregaçar a porta parecia uma boneca montada em plástico. A cara pintada, cabelo oxigenado, reinando em um castelo de tralhas. Devia ter vinte anos. O cunhado, um filho da puta, trocava sua irmã por uma criança.

Pois não – foi dizendo a barbie falsificada, ar de indiferença.

Eu vim aqui buscar a geladeira.

O olho de rapariga faltou vazar das órbitas. Tomou um susto, que ficou preso na boca lambida de batom.

Que geladeira?

A que o marido da minha irmã te deu.

Moça, não sei o que você está falando.

Sabe sim.

Ela negou por alguns minutos, mas foram poucos. Felícia tinha ferocidade no olhar. Pouca gente resistia a seu temperamento. A mulherzinha sem nome cogitou dizer que havia comprado a geladeira ela mesma, Felícia pediu o comprovante. Tremendo de pressão, tentou expulsá-la da casa de telhados tortos. Felícia botou o pé na porta, afundou-se por si mesma no interior mofado, o chão de cimento cru, encontrou na quina de uma cozinha infinitamente mais suja o símbolo máximo da crueldade dos casamentos infelizes. A máquina de fazer gelo, respirando tranquilamente seus ruídos de indiferença.

Pode levar, resmungou a outra, rendendo-se ao olhar cáustico que a invasora lançava. Encolhendo-se em covardia. Essa lata velha nem funciona mesmo.

****

Como é que você disse que seu amigo encontrou mesmo? – Maria perguntou, passando um paninho para tirar a poeira da porta, do pegador e das prateleiras desligadas. Felícia só observava, de olhos magoados.

Em um terreno baldio. Tinham abandonado porque era muito pesada.

Graças a Deus!

Graças.

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