Silêncio

Por trinta e cinco noites, desde que havia chegado ao mundo, o bebê chorava. Começava sempre por volta de uma, talvez duas da manhã, o berro fino, estridente e líquido. Escorria pela porta e vinha se alojar ali, no ouvido de Morena. Passava o tempo a adivinhar as vontades da criança: fome, por exemplo, era um agudo em si. Morena conhecia de música. O filho do vizinho estava sempre em compassos tristes. Quando tinha cólicas gemia em staccato.

A vizinha pedia desculpas com os olhos grandes, vítreos, ou com bilhetinhos enfiados no vão das portas. Lamentava o descontrole evidente da maternidade, as bolsas de pele arroxeada que se acumulavam acima do nariz, e aquele cansaço. Um cansaço que parecia durar uma vida inteira. Morena às vezes a flagrava cochilando no elevador, meio caminho da padaria, três minutos de silêncio. Um dia, cheia de compreensão com suas próprias sacolas de compras, espirrou sem querer, a vizinha sonâmbula acabou por acordar: ensaiou um esgar de decência, saiu voando do elevador com as pernas tortas de constrangimento.

Morena tinha pena. Não reclamava. Não havia por onde reclamar. Um amigo sugeriu fones de ouvido gordos e profissionais. O amortecimento lícito, equipamento de construção civil que ela comprou na loja de conveniência. Não funcionou, porque machucava a nuca. Tentou também os tapas ouvidos macios e eficientes que vedavam tudo, já não captava nem a própria respiração. Descartou-os logo: os tocos de borracha pareciam procurar uma brecha para o corpo. Temeu morrer entupida, com a cabeça mergulhada dentro de um aquário onde os sons não chegavam.

O jeito foi se acostumar, dia após dia, com aquele choro convulsivo, desesperado. Ela passou até a entender. Se soubesse como a vida era difícil, também teria ela chorado daquele jeito. Riu, achando-se genial nessa comparação pessimista e frustrada. Ao telefone, após ouvir as novidades sobre a criança aflita, sua mãe voltou a dizer que ela tinha sido uma bebê linda. Tranquila, com a educação polida dos desajustados, que não fazem muito mais do que esperar pelo pior. Em silêncio.

Pelo amor de deus, como é que você aguenta. O namorado perguntava, quando vinha dormir ali, o sono atravessado. Ele era um rapazinho impaciente. Ela dava de ombros, mastigava o cereal que pegava com a ponta dos dedos, não tinha modos, nem estresse. Você, Morena, é uma santa. Ou às vezes só acho que é acomodada.

O que é que você está dizendo?

Parece que não tem ambição. Força de vontade.

Por causa do bebê do vizinho, terminaram o namoro.

 

O nome da criança era Samuel. Um neném rosado, grande, de cabeça desproporcional. Balançava os braços como se nadasse em águas rasas. Debatendo-se nos colos mais carinhosos. À tarde, nunca dava um gemido, agarrado ao seio carregado da mãe. Abria até mesmo uns sorrisos vazios, cavados nas bochechas enormes. Uma gracinha. Nesses dias bons, ganhava um chamego dos outros vizinhos. Uma carícia leve na testa. Ao começo da noite, voltava a gritar ao mundo o poder de seu desconforto.

Apesar do histórico, e de tantas coisas que vieram depois daquela nova existência brotando do outro lado do corredor, Morena estranhou, no entanto, quando apareceu por lá um choro inédito. Ela se lembrava da data, porque estava para entregar um trabalho (era ilustradora de livros infantis): fins de setembro. Alta madrugada, um ótimo horário para começar a chorar, e também para alcançar o deadline. Samuel começou gemendo baixinho, para depois explodir em golfadas furiosas. Era um som completamente novo para aqueles pulmões tão pequenos e experientes. Morena se distraiu, foi buscar um copo de leite. Cólica? Fome? Dor? Não parecia. Dessa vez, perdeu seu próprio jogo, não soube precisar o motivo.

Nem souberam os vizinhos, correndo desesperados com panos umedecidos. A criança ardia em febres misteriosas, eles tardaram a chamar o socorro. Pensaram que se tratasse, às vezes, de mais um dos ataques de cisma, do filho tão voluntarioso. Morena estava no fim do último desenho quando a ambulância chegou, as sirenes projetando luzes vermelhas nas persianas – línguas de fogo dançantes, incendiando as janelas do bloco. Escalou sua cadeira, meio torta de desequilíbrio – também não queriam que a flagrassem espiando – viu os vizinhos cansados, suados e amarrotados saindo do prédio com um embrulho de cobertores. Os paramédicos do Samu, saltando solícitos da viatura, ofereciam os braços.

Foram embora fazendo alarde, ardendo em sonoplastia dolorosa. Sumindo no meio do negrume.

O resto da noite transcorreu tranquila, em silêncio apavorante. Morena, que há muito não rezava antes de dormir, ensaiou um pai nosso claudicante. Foi um de seus melhores e mais reconfortantes sonos, apesar do sentimento de agouro. Acordou apenas quatro horas depois, completamente recarregada, ela que sempre se estendia até o meio-dia. Estranhou alguma coisa que, no começo, não precisou bem. A luz azulada de um sol que não tinha aparecido direito, talvez? O frio fresco das manhãs, gelando as paredes?

Só mesmo ao se sentar na cama desfeita e grudada é que percebeu. Escorrendo agudo, como mil facas despencando sobre carne amolecida, o registro de uma dor que não conhecia limite ou alívio atravessando a parede. Morena sentiu um aperto no coração, bem ali onde quase nunca sobrava espaço; acometeu-se de uma vontade de consolo, uma tristeza, como só o mais secular dos lamentos podia provocar, porque desta vez era diferente: desta vez quem chorava era mãe.

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