Para não desistir agora

Quando criança, às vezes me espantava a quantidade de vida que corre em torno do tempo, para dizer a verdade ainda espanta, essa mania que as coisas têm de acontecer em paralelo. Como os corações de bebês minúsculos pedindo expansão dentro de úteros minguados ou os pratos de porcelana que escapam da mão de um lavador de panelas chinês; e os risos de adolescentes imberbes que trocam mensagens de texto enquanto, em algum lugar, pulgas colonizam um gato. Há o florescer das árvores, sempre, mesmos as do cerrado, que desistiram de viver; e aquela moça que fuma sozinha no carro enquanto aguarda o semáforo abrir. Os amores que morrem, e nascem; as taças de vinho que se multiplicam após jantares fartos; crianças de um ano aprendendo a nadar em piscinas geladas; acidentes arrancando do mundo quem não deveria ir tão cedo. Não há ordem, nem coerência, nesse enfileirar de instantes, mas o que antes me oprimia – o infinito de banalidades – hoje é até incentivo. É que talvez pareça que nada está acontecendo. Enquanto estamos aqui olhando para a tela de um computador morto, mortos nós mesmos; e dissecamos marmitas geladas como refeição à espera do próximo salário (apenas porque não dá para pagar as contas com um sonho) – é só o vazio de novidades. Parece que a rotina estrangula a este ponto, de fazer esquecer: dos maremotos invisíveis nas profundezas do Atlântico; das pequeninas casinhas de joão de barro amontoadas em quinas de telhado; de que existe alguém procurando pela gente. E se a gente se esquece também do que precisa fazer, nunca mais vai ser achado. Vamos girando inócuos, perdidos e lamentosos, vagando no deserto cheinho de possibilidades apenas porque não enxergamos a quarta dimensão do tempo. Porque nem tentamos.

Nessa hora penso nas delícias da humanidade, nas duas sondas lançadas no espaço com o propósito final de enviar uma mensagem aos extraterrestres (vitrola gigante com disco de ouro, tocando sucessos que não existem mais). Penso nos fracassos, nas coisas que escrevo (mas ninguém lê), nas pessoas que amei (e que não me amaram de volta). Tudo que eu sou costuma ser contido nesses grandes e decepcionantes eventos, quando um dos dias mais importantes de todos foi o sábado pestilento e ardido de calor em que aprendi, por conta própria, a ser livre. Que o impulso é que fornece a tônica dessa ciranda de aleatoriedades, só assim dá para controlar o destino – o impulso de enviar ao universo uma carta de amor ao que se é, ao que se pretende ser.

Vai que alguém lê?

PS: Se você, extraterrestre, chegou até aqui e gostou deste texto, leia ali em cima sobre meus outros trabalhos. Não custa nada!

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