Retalhos

Eu conheci a tristeza em um tapete de retalhos.

Coisa engraçada aquele tapete de sobras, bonito apesar de tudo, com as cores todas que se misturavam; convidava a gente a tirar os chinelos. O barraco de dona Rosária era forrado de fiapos e tecidos esquecidos, ela deixava que cobrissem o chão e as araras até a hora de virarem capacho, era seu jeito de conhecer arte. A velhota pedalava com tanta propriedade a máquina enferrujada que só podia ser artista, qualquer dia desses saía voando pela janela para ir parar em outro planeta, um planeta de manequins que vestiam restos. Dona Rosária, a senhora não tem medo de pegar voo nesse treco, eu perguntava. Ela ria. Não era de conversar.

Com as costas curvadas escutava a ladainha interminável da minha mãe sem nunca responder, ocupada que ficava lambendo a pontinha da linha para atravessar na agulha. No dia em que resolveu falar, cheia de tremedeira, a agulha escapou e furou o dedo, bordoada funda na carne. Nem sentiu, porque estava preocupada.

Na aflição é que deu conta de dizer, apontando para a  cortininha de tecido crepe: a menina lá dentro só quer saber de dormir. Desfiando a narrativa com os dentes cerrados, sussurrou: Carminha, a filha mais moça, andava avariada. Trocava o dia pela noite e dizia que queria morrer. Vocês não podem rezar um terço mais ela?

Pedido assim tão carecido minha mãe e eu não podíamos negar. Atravessamos a cortina para ver a Carminha, que esperava sentada na cama de madeira, o olhar de cão massacrado perdido no rodapé das paredes. Parecia uma velha senhora feita de fósforos, mas só tinha dezoito. Os cabelos negros e muito lisos desabavam molhados, ela tinha partido em dois longos rios ao redor do pescoço, cheiravam a sabonete barato e água gelada. Banhava-se com frequência, não só porque diziam que banho curava de ressaca a mal olhado, mas porque debaixo do chuveiro trocava a pele dos dedos, sentia o amolecer das unhas, no choque de umidade o corpo respirava. Se brincar até reagia.

Por algum motivo escolhi tomar distância da moça que tinha a escuridão fatiada nos ombros. Observei minha mãe ouvi-la e acenar de levinho a cabeça, incrédula que estava de tantas palavras ruins. Porque as coisas que Carminha queria contar não eram caras aos ouvintes daquela cidade, acostumados a moer os ossos com o trabalho e nada além disso: falava sobre cansaços que começavam de dentro, de um sono que queria durar o tempo inteiro e uma tristeza que fazia a gente chorar sem ver. Nessa época, aos dez anos, eu só ficava triste quando tinha saudades: do meu pai, que tinha ido embora ganhar a vida e não me viu viver; do cachorro Pepi, apanhado pelo carro do sorveteiro em plena fuga na avenida. A possibilidade de uma tristeza invisível e injustificável me causou medo.

Isso é falta de deus no coração, definiu mamãe, dando a largada no terço, com a salve rainha mãe de misericórdia. Rezamos as três no cômodo abafado, eu tomando o cuidado de não erguer a cabeça, para não resvalar nela, mas quando percebi a Carminha me olhava como se adivinhasse o espanto. Eu se fosse você não crescia, ela sussurrou de lado, magoada com tanta reverência.

A Carminha não estava doente de verdade, minha mãe explicou, mais tarde, quando eu perguntei. Eu achava que ela sabia o que estava acontecendo, ela que praticava empatia em massa, visitava os enfermos e auscultava as coisas que os outros tinham no coração. Recobrando o sorriso fácil, naquele dia me confortou com um muxoxo inconsequente. É frescura, arrematou.

***

Vimos a dona Rosária muitas vezes depois. Sempre sozinha, flutuando corcunda com seu carrinho de feira. Dizem que foi perdendo clientes porque não conseguia manter os olhos no rastro da linha. As filhas mais velhas, casadas e estabelecidas, mandavam o consolo de alguns trocados, mas não tinham paciência para o choro suave e ressentido. Dona Rosária, que não era de conversar, também acabou chorando sem sentir. Lágrimas macias, de tafetá.

***

Quando voltamos à casa da costureira era quase natal e uma multidão tinha vindo com suas melhores roupas. Vamos lá também dar um abraço na dona Rosária, minha mãe convocou, arrastando os pés ladeira abaixo para engrossar a fila. Um amontoado de gente esperava a vez de entrar no cubículo, outros apoiavam-se na mureta no quintal, e as mulheres do bairro carregavam bacias de pão de queijo e bules fumegantes de chá como se existisse urgência em alimentar as visitas.

O tapete de retalhos, ainda na porta, era esmagado sem dó por sapatos de desconhecidos que passavam sem me dar a cortesia de uma explicação. No pequeno mosaico deitei meus joelhos, contando com os dedos as cores costuradas pelo avesso, dali de baixo podia ouvir as conversas em cacos que os estranhos deixavam escapar pelas pernas. Um diálogo aos pedaços:

Mas ela usou a tesoura?

A tesoura.

Que tristeza.

(O tapete tinha trinta e quatro cores.)

 

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