Borracha e algodão

Eu sabia que Otto seria o primeiro a me abandonar. Os olhos de Otto fugindo pelas paredes, dizendo que não conseguiam sustentar a força da minha teimosia. Ele envergava então uma pele alaranjada e plastificada, falava como um lorde dos anos 1950, mas de cara era apenas um rapaz reciclado. Eu me lembro de quando comuniquei-lhe sobre minha decisão, naquela tarde doce em que me pediu em casamento, embebido das coisas mentirosas que o amor provoca. Ele disse que não haveria problemas com a minha renúncia, que nada disso mudaria o que havia em nós. Acho que ele não acreditou em mim.

Agora moro no sítio que pertenceu à minha família e ninguém vem me visitar. Não faz mal, porque me permito a companhia dos gatos e dos cachorros. Meus filhos, os que tive e os que fui recolhendo pelo caminho, temem que eu me desfaça. Eva, aquela que acreditei ser a mais sensata, procedeu ao seguinte diálogo:

Você vai morrer.

Todos nós vamos, eu disse.

Mas você vai morrer antes.

Eles não entendem que a fragilidade também é uma conquista. Todos os dias, ao despertar, olho-me no espelho. Recebo com curiosidade as rugas sinuosas passeando pelas curvas do meu rosto, os afluentes de carne. Os cabelos, descoloridos, crescem apenas para cair. Não me acho bonita agora, não é por isso que escolhi envelhecer.

Eu fui uma mulher muito bonita, e por isso foi, em parte, tudo mentira. Os galanteios no elevador, o sorrisinho discreto dos garçons, derretendo-se sem conseguir disfarçar o choque. O meu poderoso cartão de visitas genético era melhor do que qualquer loteria nesta vida. Porque ser bonita fazia de mim qualquer coisa inútil, qualquer coisa vazia de outro sentido. Ser bonita fez de mim o altar em que Otto escolheu repousar sua devoção. Quando eu me prestei ao papel de deixar de ser, perdi o respeito, os amigos, e o perdi. Tomaram-me por louca.

É uma coisa meio hippie isso que você está fazendo, acusou meu pai, com suas feições de porcelana decorada. Só a voz denuncia a idade: ainda não conseguiram frear os desmandos do tempo na traqueia, nas cordas vocais, ele fala como o homem que viveu oitenta anos de cigarros temperados, berros entusiasmados e bebidas geladas. A voz, hoje em dia, é a coisa mais sincera de sua imagem.

Mas eu quero mesmo é falar do menino, o menino que me apareceu ontem de manhã, enquanto eu plantava minhas beterrabas (que provavelmente não vingarão nessa terra de securas). Tomei por filho de algum vizinho, estava com as roupas bem limpas, apesar do ranho na cara. Veio me espionar. Percebi seu pequeno nariz entrincheirado atrás das roseiras. Demorei-me um pouco no disfarce da ignorância, trabalhando calmamente no canteiro, até erguer a pá um pouco mais alto do que devia, depositando meio quilo de terra acima das roseiras. Morri de gargalhar ao ouvi-lo reclamar da chuva de farelos.

Como é que você chama, perguntei, quando consegui tirá-lo de lá.

Samuel, ele me disse.

Eu me lembro do que ele me disse. Também do seu rosto negro, a cabeça raspada. Sete, talvez oito anos. Dali a vinte, provavelmente, seria submetido ao processo de substituição celular (como chamavam). Seria preso em si mesmo, congelado em sua aparência mais digna.

Por enquanto ainda era criança, e eu sei do que as crianças gostam, por isso ofereci uma xícara de chocolate quente. Samuel, dando de ombros, não recusou. Em primeiro momento teve medo de mim, eu percebi, mas depois concluiu que minhas mãos enrugadas não ofereciam risco. Com o estilingue que carregava no bolso de trás – essas heranças tão sentimentais – facilmente me destronaria de qualquer ameaça.

Fervi o leite na chaleira de metal e deixei que Samuel inspecionasse todos os cantos da minha casa, o que ele fez com uma curiosidade genuína. Quis saber até onde eu dormia, e pareceu bem pouco satisfeito com a aparência ordinária de minha cama. Depois veio, sentou ali mesmo naquela cadeira, e tomou um grande gole do chocolate, pintando os lábios com a espuma do leite. Você é até comum, revelou, os olhos de jabuticaba cravados em minha testa.

E por que eu não seria?

Sei lá. Todo mundo está falando da senhora.

Falando o quê?

Que a senhora é feia.

Eu dei uma gargalhada.

Sim, acho que sou – respondi. Mas o que você está achando até aqui?

Eu percebi que ele nunca tinha visto uma pessoa velha na vida. Esse tipo de aberração humana costuma fugir do noticiário, das enciclopédias virtuais. Fora as imagens abandonadas na camada sedimentar da internet, eu sou um espécime em extinção. Samuel, que era atrevido, foi além, pediu para passar a mão. O dedo indicador tremeu de receio enquanto analisava a consistência gelatinosa do meu rosto.

Parece borracha, ele concluiu. E o cabelo é algodão.

Borracha e algodão.

Agora sou feita de commodities.

Eu disse que esse episódio ocorreu ontem? Ontem não. Ontem choveu, chove há dias, portanto não posso trabalhar nos canteiros, e nem as roseiras estão altas o bastante para esconder um menino. Deve ter sido no mês passado. Acontece com frequência de eu me confundir assim.

A questão é que Samuel, após me prometer uma nova visita ao se despedir, satisfeito com sua incursão ao território estranho, nunca mais veio. Por isso peguei meu casaco esta manhã mesmo e caminhei pelas redondezas, na tentativa de achá-lo. Ando assim, mais solitária do que nunca. A solidão virou uma coisa que me dói nos ossos. Você nunca acha que vai sentir tanta falta das pessoas. Mas essa é a coisa mais terrível da vida: você sente falta de tudo que pode perder.

De qualquer forma o esforço não valeu a pena. Tenho muitos vizinhos, é verdade, porque a terceira onda rural os arrastou até aqui, convencidos de que precisavam mesmo plantar a própria comida. Eles não gostam de mim, apesar de termos todos a mesma idade, o que devia gerar uma camaradagem imediata – ei, olha para nós, sobrevivemos ao pior de nossa geração. Mas eu entendo, é claro. Entendo que sou um lembrete do que todos eles deviam ser. Não mocinhos e mocinhas com a aparência artificial de trinta anos resfriados em formol, mas velhos alquebrados com pernas de graveto.

A questão é que, ainda que não gostem de mim, não são rudes o suficiente para me expulsar de suas propriedades arrematadas no grito. Por isso perguntei, delicadamente, se sabiam por acaso de um menino negro de um metro e meio chamado Samuel. Não apenas disseram desconhecer, mas garantiram: nenhuma criança anda por aqui há anos. Não em um raio de centenas de quilômetros.

Então cheguei em casa e encontrei Otto plantado na sala de estar, aparentando preocupação. Enfureci-me com a visita inesperada, quis gritar com ele (devo ter gritado). Mas ele aceitou jantar. Há tempos não tenho também companhia para jantar, então é um alívio fazer mais de um bife. Fritar a carne na gordura de porco, como minha mãe fazia, e minha avó antes dela.

Otto estava mergulhado em reminiscências. Trazia um presente no bolso do terno de linho, junto ao lenço de seda – ele tem dessas incongruências, apesar de ter se conservado moço, veste-se como o nosso tempo. Era a fotografia de um rapaz negro, bastante bonito. Quem é, eu perguntei.

O nosso filho, ele disse. O Samuel.

Então eu me lembrei, é claro. Do moleque abandonado nas marquises da cidade de siglas onde vivíamos então. Lembrei-me de quando arrastei aquele menino sujo e prontamente levei a nossa casa no Park Way, onde já tínhamos duas mocinhas nossas. Otto ralhou comigo, na época. Quase não queria sustentar a insensatez de sustentar mais um estranho. Eu nem o ouvi. Era inverno na capital do país, um inverno estranho para uma cidade no deserto, o menino tremia. Eu o abracei e preparei um chocolate quente. Ele me olhou com desconfiança, mas sorriu para mim quando terminou de beber, os lábios condecorados com um sorriso de espuma. Bigode de leite.

Você entende agora, foi o que o Otto disse, quando eu queimei os bifes, e comecei a chorar.

Na verdade Otto não disse nada, nem esteve aqui, o Otto foi o primeiro a me abandonar. Mas sim, entendo. Eu estava certa de que sabia o que estava fazendo, quando renunciei à tentação de segurar tudo entre os dedos, de não largar o osso, quando quis sobreviver sem ser estátua.

Agora eu nem sei mais.

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