O nome dela

       A Nêga não me deixava comer melancia à noite. Dizia que inchava na barriga, se engolisse caroço era capaz de nascer um pé ali dentro, a semente tratava de fazer casa na dobra do estômago. Eu obedecia trancando a boca, aterrorizada com a ideia de ser mãe de fruta. Quando ela botava para dormir exigia a oração do pai-nosso sussurrada com clareza perto da vela, acesa a quaresma inteira, que era para espantar os sonhos ruins. Depois distribuía um beijo melado, aquela era a minha parte preferida: quando a Nêga se curvava, malemolente e gentil, espalhava no travesseiro o cheiro agridoce de cigarro de palha e carvão. Na hora do boa noite eu aspirava com prazer todos os seus aromas secretos que, para mim, eram rastros de uma civilização inteira de suspiros. Às vezes pendurava-me nos braços grossos, escalava o pescoço cheio de verrugas escuras e dizia que queria morar ali, dentro dela. Ela ria – mas já mora aqui faz tempo, menina.

      Eu chamava a Nêga de mãe, assim como meu irmãos, e lembro que o pai escorraçou-nos todos por causa disso. Queria dar uma lição e falar baixo, chamando à sala depois da janta, mas não era de sua natureza domar a impaciência, ele gostava de virar trovão para ribombar nos ouvidos alheios qualquer canção de autoridade. Começou aos gritos potentes só para desafinar de cansaço e dizer que, daquele jeito, a gente magoava a mãe de verdade, a outra mulher, esquálida e adoentada. Eu a conhecia como Cla-ri-ce, porque ouvia sempre ele explicar aos conhecidos, com seu sotaque carregado: Cla-ri-ce não vai bem. Estamos pensando em um tratamento novo. Obrigada pela torta, Cla-ri-ce agradece.

     A doença que minha outra mãe tinha era de origem misteriosa. Ela emagrecia, lívida, uma escultura soprada de vento e de vidro. Eu traçava minhas conjecturas e pensava que a distância, o jeito sorumbático e os sorrisos amenos – cavados de forma automática em uma boca de cavalo – eram apenas o jeito encontrado para proteger os ossos de serem arrebentados por nós, rebanho desastrado e infeliz, nós que destruíamos todas as coisas.

     A Nêga dizia que não era nada disso. Compadecia-se de nossa solidão de criança. Um dia, até tentou me explicar do que é que a Clarice sofria: de resfriado na alma. É quando a gente tem febre, mas só que por dentro.

     Minha mãe teve tantas febres subterrâneas que um dia não se aguentou de frio e engoliu remédio para parar de congelar. Morreu inteira, o médico tomou-lhe o pulso e sacudiu a cabeça, dizendo ao meu pai: morreu de tristeza.

      É claro que ele, na qualidade de jovem tabelião com seus registros de vida e morte, não podia cuidar de nós. Mandou meus irmãos para um colégio de padres. Eu ainda não tinha idade para estudar com as freiras, por isso continuava com a Nêga. Fui crescendo na beira do fogão a lenha, roendo pequi maduro e rindo de suas histórias de gigantes. Ela mesma me parecia um titã surgindo de todos os lugares e principalmente do alto, a pele áspera feito casca de árvore abrigando eternidade, guardava todos os segredos no peito (amordaçados com pano para que não despontassem). Nessas horas eu ficava feliz porque ela nunca tinha se casado.

     A Nêga usava sempre um camisolão esgarçado e encardido, botões enfileirados em procissão, os sapatos tinham que ser mesmo masculinos, porque o pé não cabia em tamancos. O cabelo preto de redemoinho era cortado rente às orelhas e as calças de brim, encomendadas no alfaiate, escondiam suas coxas grossas de espera, de filas eternas nas quais aguardava em posição de sentido. Indignas de qualquer descanso.

     Somente às sextas-feiras, depois da janta, é o que o rosto largo iluminava-se de alguma substância quente e morna, saía para a quermesse de gravata e tudo. No pescoço que eu amava cabia um cheiro novo e enjoativo de perfume, flutuando ladeira abaixo ao encontro do desatino. Cheia de coragem de existir.

       No resto dos dias, nunca a chamavam pelo nome, acho que não sabiam. Pairando imaculada pela casa, acordando antes do sol para sovar o pão e passar o café, o chamado era sempre sua cor. Ninguém mais queria saber dela de outra forma. Só eu. Para mim, a Nêga era o mundo.

      Aos dezessete anos, acometi-me pela primeira vez de tormentos por um rapaz. Ressentida, transtornada e cheia de pudores, fui buscar consolo nos braços musculosos da velha mãe. Se era certo que sabia de tudo, claro que conheceria a solução dessa doença. Disse-lhe que estava para morrer de paixão por um doutorzinho. A Nêga riu gostoso. Acho que nunca vi os dentes brancos brilharem assim tão felizes nos lábios de cinzeiro. Respondeu que eu deveria escrever aqueles versos bonitos inventados e dizer para ele tudo o que se passava, porque o amor era um pássaro devorador de palavras garbosas – se encontrava silêncio escapava indócil. Amor era uma canção que a gente tinha que cantar sem vergonha. Mas e se ele não me quiser, perguntava eu, toda aflita.

      Quem é que não vai te querer menina, ela ralhava, cheia de uma certeza impossível de tão comovente. Eu até acreditei.

       Ela estava economizando para viver um desejo proibido em um lugar distante, um lugar que fosse provável, e por isso sabia tanto sobre pássaros que precisam viver cantando. As latas de leite debaixo da cama acumulavam uma fortuna em cruzeiros. Meu pai estranhou o vazio, praguejou o abuso do silêncio, no começo acho que sentiu mais falta dos pães de miolo quente assados antes do sol. Só depois é que tratou de falar com o delegado e a gente graúda que importava, mas ninguém rastreava o paradeiro. Na rodoviária, nenhuma passagem havia sido vendida para uma preta de um metro e oitenta com carapinha raspada. Sabe o que diziam dela, não é, doutor. Se perigar alguém se exaltou, a gente não pode nem condenar.

      O padre rezou uma missa na igreja que ela tanto amava, lá no altar falou sobre respeito, caridade e perdoar diferenças. Os cavalheiros se mexeram no banco, desconcertados porque não acharam que a ausência da Nêga valesse um sermão. Eu saí mais cedo. Na rua os fofoqueiros teciam um novelo próprio, repartindo suas teorias cheias de veneno: diziam que podia ter sido ela, na carroça de abóboras, fugindo ao amanhecer com a comida dos porcos e a mulher do Coutinho, que também era esquisita. Ou que qualquer hora dessas seria encontrada com a boca cheia de formigas para aprender a não ser aberração. Perguntaram o que eu achava, enquanto seguia o caminho de casa, meus joelhos latejando de frio e de saudade.

      Eu acho que ela finalmente se cansou de não ter nome.

 

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