O chorador de mortos

Antes de tudo, o que sabiam do mundo? Se podia ser úmido e cheio de ladeiras, ou comprido e inesgotável, tanto faz, naquela época o mundo cabia num pasto seco. As chácaras se espremendo em simbiose, quase em riba umas das outras, e no fim a igreja e o cemitério, os dois tão coladinhos que deus podia ser um coveiro. Era sempre por lá que ele aparecia, o homem da luz. Não tinha quem o expulsasse, embora trouxesse agouro e má sorte, porque a igreja era uma casa aberta aos visitantes todos, o padre fazia vista grossa, vez em quando até descia um pedaço de pão. O homem da luz estava sempre com fome.

Esta, por acaso, não era sua única e distinta alcunha, estava sempre por aí sendo chamado de várias coisas, sem nunca ninguém conferir o nome. Primeiro, era preto que nem a noite, que nem os bois acetinados, e tinha olhos amarelados de doença, e a barba branca como algodão na planta. Chamavam-no nego cego, e era porque não enxergava bem (porque não enxergava bem andava com o lampião, e daí vinha a fama de dono da luz). Trazia também, além de uma sorte de crucifixos e amuletos, uma carroça cheia de tranqueiras, coisas que trazia da cidade, e que o pai da Carminha nunca comprava, mesmo sendo comerciante e necessitado de mercadoria. Dizia que era roubado. Que o nego cego, o homem da luz, também era ladrão.

Os irmãos, a mãe e até as mulheres da rua tinham medo dele. Mas a Carminha não, a Carminha tinha só curiosidade. De vê-lo aparecer no morro, com o tinido das panelas e dos cacarecos que carregava na carroça, sozinho e velho feito as pessoas más, mas sem parecer ruim. Com frequência ele também falava sozinho, e caminhava bamboleante, mas nem era isso. O interessante era a época, sazonal e sombria, em que o homem da luz vinha a surgir: sempre quando alguém morria.

É por isso que não gostam dele, explicou a mãe da Carminha, que gostava de ter razão. Ninguém gosta de papa-defunto.

Não era qualquer defunto, isso a perspicaz filha do comerciante percebeu. Porque quando morreu o Antônio, dono da sapatearia, ele não veio. Nem quando bateu as botas o ilustríssimo vereador Marcos Cândido, que há tempos não vivia ali, mas veio a ser enterrado no quintal da mãe. Carminha fazia as contas. Anotava em um caderninho todas as mortes que não eram devidamente acompanhadas pela presença sorrateira.

A solidão do homem da luz fazia a moça se interessar. Ela mesma se sentia isolada, forasteira, cheia das angústias. Estava em idade de casar, mas sabia que não era bonita, ou pelo menos não atraía os rapazes, interessados em garotas mais tolas, em narizes mais finos. Além do mais sonhava acordada, com os mundos além do pasto-mundo, embalando as compras da mercearia do pai, essa sua filha é meio avoada né – tinha quem comentasse. Carminha gostaria de viajar, de conhecer um grande amor, de ser estudada. Mas não era rica, bem lembrava a mãe, pedindo que fizesse uma massagem nas pernas estourada de varizes com sebo de carneiro. Você tem é que sossegar e ficar aqui para cuidar de nós. Carminha era boa nos cuidados, nos bordados, em anotar as idas e vindas do homem da luz – mas não sabia viver.

A última vez em que ele veio foi quando a irmã Celeste partiu. A menina admirava demais a freira, caridosa por excelência, criadora do único convento daquelas bandas, mulher de fé inabalável, ainda assim pouco querida – tinha o hábito de responder atravessado quando lhe desagradavam certas condutas, de cutucar com vara curta os hipócritas, também apreciava um bom licor, embora fosse santa. Poucos a gostavam, a sinceridade não encontrava lastro de amor. Com o terço na mão, Carminha foi mesmo uma das únicas a comparecer no velório, dentro da abafada e restrita sala paroquial, cantando com os olhos na porta, porque sabia que era hora, e não se decepcionou.

Nunca tinham estado assim tão próximos, e ela sempre acreditou, por preconceito ou imaginação pobre, que o homem da luz fedia. Um homem que vagava a esmo e trazia as camisas manchadas de suor, que tinha a cor dos escravos e não parecia ter casa. Longe disso: ele cheirava a lavanda e alecrim. Respeitoso, entrou na sala, atraindo olhares de vexame e espanto, tirou o chapéu surrado de feltro, o qual levou ao coração, e mansamente, como se abrisse uma torneira no sentimento, começou a chorar. Chorou por vinte minutos inteirinhos, causando desconforto até no padre, que saiu para ajeitar um chá de camomila, e nas poucas freiras que vinham fingir respeito à irmã Celeste. O pranto silencioso causava incômodo porque não trazia desespero, nem falsidade, era de uma honestidade que a morta, estendida no caixão fechado, só podia apreciar. As lágrimas se descolavam dos olhos amarelados, desaguavam na camisa, desapareciam ali no colarinho como se nunca existissem. Carminha, em particular, estava hipnotizada.

Teve que falar-lhe, acabar com aquelas dúvidas que a intrigavam desde a meninice. Pescando uma fatia do bolo de fubá que o serviço paroquial acabava providenciando aos velórios esvaziados, pediu a licença: o senhor, como se chama?

Primeiro, o homem da luz pareceu espantado, depois genuinamente feliz. Piscou para ela os olhos chorosos, agora secos e apertados – ele só enxergava em brechas.

Pedro, respondeu, e tinha uma voz macia de homem novo.

Eu sou Maria do Carmo.

É a filha do Ditinho, da mercearia.

Sim senhor.

Bom. Que bom.

Ele não estava acostumado a costurar diálogos, e a bem da verdade é que Carminha também não, por isso cada um se concentrou no seu pedaço de bolo. Às vezes, dobrando a cabeça para o lado, como um pássaro, Pedro ria, assim achando tudo muito engraçado e delicado. Tinha um sorriso bonito, de dentes bem feitos.

Por que você faz isso – ela não aguentou. Por que vem nos enterros?

O homem da luz, o distinto e famoso, embora puramente ordinário, aquiesceu. Sabia que era isso que ela queria perguntar, e foi sincero, como mandava a etiqueta da falecida: era um chorador dos mortos, especialmente os solitários, porque acreditava que a alma, para partir bem composta, precisava de um empurrão dali de baixo. Todas as pessoas tinham o direito de morrer com despedidas. Quem morria só, desaparecia logo.

Carminha ficou foi desapontada. Tinha esperanças de que o sujeito misterioso, uma vez interrogado, se provasse mágico. Ali, visto de perto, Pedro parecia um homem comum, até um pouco louco. Ele não se incomodou com a decepção. Precisava ir embora, pegar a estrada, chorar os mortos de outras paragens.

Você vem quando eu morrer? Carminha perguntou, de supetão, de desafio, não estava nem um pouco próxima do fim, mas às vezes tinha ganas de dar cabo da própria vida, só de tédio. De tédio e tristeza. O que ela sabia do mundo? Era muito pouco.

No seu não – Pedro respondeu, botando o chapéu, e naquele meio segundo ela viu tudo que ele, míope, via: a mala feita, os pais acenando de desespero do pasto, uma viagem de trem até a capital, o curso de datilógrafa, um emprego de secretária; viu um frango sendo assado no forno, duas crianças na sala, um retorno. Viu-se, naquele espelho amarelado e cego, bonita do seu próprio jeito, amada apenas pelas pessoas certas, mas só se tivesse coragem de ir embora – Você não morre sozinha.

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