Delivery boy

Vinho texturizado, macarrão pronto, almôndegas congeladas, uma refeição para dois. Ele já sabe que está levando um jantar romântico e pedala mais rápido. Avisaram que o elevador do prédio não funcionava, então foi de escadas, chegou com os joelhos latejando de dor, a moça com cara de rato pegou o pacote sem um sorriso e não avaliou o serviço. Provavelmente, não estava apaixonada o suficiente.

Quando pediam fraldas e leite em pó, à meia-noite de um sábado, ele já sabia que tratava com pais relapsos ou muito cansados, então tratava de ser melhor, passar no posto de recarga elétrica com entusiasmo e comprar um chocolate. Explodia de estrelas e era bem recompensado. Quer saber como fazer sucesso neste ramo? Seja humano.

Claro que não era assim o tempo todo. Uma máquina de amenidades. Algumas coisas o deixavam bastante irritado. Gente que pedia comida mexicana – ele detestava o cheiro – e depois cancelava. Não dava nem para reaproveitar, comer a porcaria, distribuía aos vizinhos. E gente que pedia gente, carne barata, que ele guiava em seu tuk-tuk com um pesar estampado no rosto, não conseguia disfarçar.

“Moça, a senhora é tão bonita. Podia ter uma vida melhor.”

Elas riam. Davam um beijo na bochecha furada dele e diziam que não havia vida melhor. E iam embora, equilibristas, em suas patas altas de cristal.

Quando ele estava cansado das entregas e resolvia ser chofer, era sempre uma curiosidade. Como é que você consegue? É muito cansativo? Nossa, seu corpo deve ser mega tonificado. E você vai saber o endereço certinho? Você vai saber ler? Falavam alto, como se ele fosse surdo (e olha que ainda tinha orelhas). Desistia depois de algumas voltas pelo mesmo quarteirão. Estava cansado da mesma curiosidade natural, de perguntas sobre o que-é-que-aconteceu-com-sua-cabeça. Quando só precisava entregar alguma coisa – desde que não fossem coisas vivas – usava um capacete, ninguém reparava que tinha um crânio esmagado.

Não que ele achasse que as pessoas fossem culpadas por isso. Elas não sabiam da verdade sobre sua dita deficiência, então era inútil esperar que entendessem. Quando Rafael era criança, achavam que ele era burro. Que seria burro para sempre. Eu se fosse a senhora não perdia tempo, mãezinha – chegou a dizer um pediatra pouco sensível. Diagnóstico: retardo mental.

Mas a mãe de Rafael não desistiria. Ela que tinha sido uma das primeiras a ser afetada pela praga que se espalhou pelo ar. A mãe que foi ficando febril, ainda na época de barriguda. Picada por um mosquito, quem sabe, ou apenas doente de alguma coisa que você come, porque sente fome até perder o juízo, e logo em seguida percebe que você foi um erro comer. Ninguém conseguia lutar contra inimigos invisíveis.

Mesmo que o menino tivesse saído estragado e feio, a mãe o amava até os dentes. E acreditava que não era um pedacinho a menos de cérebro que ia fazê-lo menor. A mãe dizia assim para ele, baixinho: “você vai ser homem inteligente e bondoso. Porque se Deus te tirou alguma coisa, quando te podou a nuca, foi a maldade do mundo”.

 

Rafael não era burro, nem retardado, mas sabia ser diferente. Porque não tinha mesmo raiva, apesar de se irritar com comida mexicana e com as moças que vendiam suas coisas mais bonitas. E porque gostava de contar cada pedalada que dava, todos os dias, desde que tinha se candidatado àquele emprego por não ter sido aceito em mais nenhum. Trezentas e cinquenta e cinco mil pedaladas em fogo cruzado. Ele não tinha perdido um só endereço, desde o começo.

Também, por essa ansiedade de saber logo o que vinha pela frente, ficava analisando as mercadorias. O povo gostava muito de bebida quando estava chegando perto do fim da semana. Cigarros, também, pacotes e mais pacotes de um fumo enjoativo, que ele levava separados em uma sacolinha própria. Remédios para dormir eram uma tendência quando esse mesmo povo inventava de trabalhar demais.

Ele gostava da solidão das ruas. De não haver mais tantos carros – lembra como era, aquele cheiro pavoroso de fumaça queimada, grudando nos cantos internos da gente? – de não haver pedestres que ele pudesse atropelar com seu olho ruim, que só não era muito bom porque, dizendo a mãe, era conectado com  a parte da cabeça que faltava. Todo mundo estava bem confortável fazendo o que faziam protegidos em suas casinhas de isopor e alumínio. Longe do sol, da estática, da lama, do ar infectado. Não era uma vida ruim quando você se acostumava.

 Rafael sabia de casos, por alto, sobre as pessoas que permaneciam dentro de casa por puro medo. Não apenas porque tinham todas as coisas ao alcance das mãos, muitas horas de entretenimento e muitos rafaéis para levar o que quer que precisassem; mas por puro pavor de que ainda não fosse seguro. Tinham um nome para isso, mas nomes era um negócio que ele só podia guardar na parte da cabeça que não tinha. Quando conheceu a Morana foi engraçado.

 

O pacote estava muito bem selado porque o pedido foi feito diretamente ao restaurante, mas Rafael sentia cheiro de fritura, portanto teve poucas considerações a fazer, exceto de que se tratava de alguém com hábitos pouco saudáveis. Quando ela abriu a porta, o choque o atingiu bem no meio das omoplatas. Uma mulher gigantesca, isso era. De proporções elefantícias, enormes mãos redondas com unhas pintadas a esmalte, um cheiro fresco de hidratante nas dobras de carne. Rafael entregou a sacola com absoluto fascínio, mas os olhos dela estavam pousados no chão. Um obrigado automático, quase de máquina, ressoou da garganta, enquanto ela gentilmente fechava a porta.

Tinha horror aos outros seres humanos, a Morana, e era dessas que vivia dentro de casa há dezenove de seus trinta e cinco anos. Confinada no último andar do prédio elegante. Rafael jogou conversa fora com o porteiro que, feliz pela companhia no saguão silencioso, fofocou alguns detalhes: era uma coitada. Órfã de mãe há pouco menos de um mês. A mãe que fazia tudo por ela, inclusive cozinhar.

“Tenho certeza de que o peso dela ficou ainda maior depois que a velha morreu”, o porteiro pisca.

Rafael sabe que vai voltar.

 E ele volta. Pelo menos quatro vezes por semana. Aguarda com ansiedade o momento em que a mulher vai abrir a porta e ele terá  a oportunidade de vislumbrá-la uma última vez em toda sua glória, todos os seus quase cento e cinquenta quilos. Morana começa a perceber que o entregador parece muito empolgado e se sente constrangida com aquela atenção enviesada. Um dia, ele deixa um bilhete dentro do pacote de batatas fritas hidrogenadas. Precisou de muita coragem para fazê-lo.

O que está escrito nesse bilhete é algo que Rafael pensou muito, com todas as suas lacunas pessoais, para escrever. Passou, na verdade, pelo menos uma semana inteira pensando. E chegou à conclusão de que precisava dizer a verdade, mas era uma verdade que Morana nunca tinha escutado (portanto achou que fosse mentira). Dizia: “moça, você é linda demais”.

Morana parou de convocá-lo. Tinha certeza que ele estava caçoando dela. Chorou de humilhação, no banheiro, enquanto penteava os cabelos, mas tarde demais teve fome, e precisou de alguém durante a madrugada. O serviço dele era uma coisa fácil de acionar. Nesse dia, seja por dúvida ou ansiedade, ela deixou a porta aberta mesmo depois de pegar a sacola lacrada, então ele esteve à vontade para tirar o capacete. E quando viu que faltava-lhe metade do crânio, que ele estava além dos retratos do mundo como ela, sorriu e deixou-o entrar.

Conversariam sobre isso nos dias seguintes. Porque, além de bonita, Morana era uma moça espirituosa, e Rafael sabia disso mesmo sem saber. Ela diria: somos como um jogo de tetris que não se encaixa direto. Arestas e quinas arredondadas, espaços que faltam e outros que se empilham. Ele não entendia metade do que ela falava, ela que era pessoa culta com hábito de ler livros de verdade, mas adorava ouvir o som das palavras desconhecidas se embolando no ar. E sorria, porque era assim que a mãe tinha ensinado a fazer, quando ele não entendesse os outros. Um sorriso era passaporte para a tranquilidade.

Rafael, apesar de ser homem feito, não tinha experiências sexuais. Tinha um órgão genital plenamente ativo e inteiro, é certo, mas suas primeiras aventuras pelo terreno das sensações eram apenas solitárias. O mesmo valia para Morana. Demoraria muito até qualquer um deles ter uma atitude nesse sentido. Ele só lhe deu um beijo, por exemplo, na quarta semana em que a visitou para conversar. Um estalo na boca cheia de batom. Ignoraram o fato, corados como crianças pegas no flagra.

Na maior parte do tempo, conversavam. Morana comentava sobre as coisas que a mantinham segura, dentro de casa. Além de falar português engraçado, falava inglês, alemão e francês; tocava piano, violão e era viciada em filmes antigos sobre apocalipses alternativos. Trabalhava como programadora de computadores a distância, motivo pelo qual nunca precisava mesmo colocar os pés fora de sua gaiola. Ela que dizia, assim, que era como um pássaro inchado. Mas não cantava, só esperava morrer.

Rafael gostava quando ela contava sobre a mãe falecida, porque ele também tinha muitas histórias de mãe para contar. Mas Morana tinha assuntos mal resolvidos com a sua, não era muito legal de saber que uma tinha precisado morrer para a outra sentir que fazia-lhe falta. A mãe de Morana tinha sido mandona, séria, artista de um tempo que não existia mais. Mas também uma cozinheira de mão cheia e tinha morrido estatelada na cozinha, com os olhos arregalados para o forno, vigiando o pão que não terminava de assar.

 “Ela amava fazer pão”, Morana explicou. “Ficava o dia todo amassando ali os seus pãezinhos de minuto. Morreu como queria. As mãos sujas de farinha”.

“Adoro pão, queria provar”, Rafael comentava, por delicadeza.

“Ela também era gorda. Mas era diferente de mim. Ela tinha um encanto.”

Rafael sempre dizia que Morana tinha um encanto, mas ela não concordava. 

A última vez em que ela havia saído de casa tinha sido há tanto tempo que parecia mentira. Tratava-se de um exercício de combate a incêndios. Comuns depois que os prédios superaquecidos pegavam fogo como madeira e papel, e gente morria com os ossos carbonizados, empretecidos; gente que morria enquanto sonhava. Soaram um alarme, ela desceu contrariada depois de ser despertada pela mãe (ainda viva), vestindo seu pijama de numeração extravagante e calçando pantufas. Pesava menos, podia correr mais, e naquela noite quase sufocou.

“Fiquei muito puta quando descobri que era só uma simulação”, ela contou. Os vizinhos nunca tinham visto seu rosto. Na calçada, ela foi o assunto.

Rafael queria levá-la para conhecer sua própria mãe. Mas o jeito como ela reagiu a essa mera indicação deixou-o triste. Não que ela tenha gritado ou descartado a ideia de começo, com um golpe de terror. Apenas se encolheu feito concha, os olhos vidrados fixados na parede e um silêncio constrangedor entre os dentes. E ele soube que era hora de embora, que a visita estava encerrada, e que esse assunto jamais voltaria à margem das discussões.

No segundo mês em que se viam com tanta regularidade que poderiam ser amigos de uma vida inteira, Morana pediu a Rafael que tirasse sua virgindade. Assim, sem meio termos. Ele ficou roxo de vergonha, mas deliciado com a ideia.

“Hoje?”, perguntou.

“Não, hoje não. Tem que ser em um dia especial.”

E ele prometeu que a levaria para jantar antes. Se ela não queria sair, ele arranjaria um jeito de levar o restaurante até ela. Como sempre fazia, como nunca tinha deixado de fazer. Combinou às sete horas de um sábado, quando, encerradas as corridas do dia, ele tomaria um banho, vestiria sua melhor roupa e compraria uma refeição apropriada ao romance. Como almôndegas ao molho de tomate e vinho texturizado.

Morana esperou, com uma expectativa que fazia o peito ribombar de suspense. Também vestiu sua melhor roupa, um vestido extragrande adquirido em loja online que a deixou bonita, bonita mesmo, a ponto de se sentir de verdade. Passou perfume e calçou sapatos que machucavam seus pés (mas não fazia mal, porque estaria em casa). Quando o relógio na cabeceira da cama (feita, com lençóis igualmente novos) indicou seis horas, achou que fosse morrer de agonia e resolveu produzir cachos no cabelo liso.

Às seis e meia, arriscou uma olhada pela janela forrada com cortinas à prova de sol, para ver se ele já vinha. Às seis e cinquenta, respirou fundo diante da porta, preparada para abrir antes que ele tocasse a campainha. Às sete e meia, imaginou que o trânsito provavelmente estaria anormal naquele dia.

Às oito, ligou duas vezes para o celular, e ninguém atendeu. Às oito e meia, monitorou o GPS do tuk-tuk dele no aplicativo de entregas (permanecia com indicação estagnada, de inativo). Às nove, espumando de tristeza, deu-se conta de que ele a havia abandonado, e odiou todos os homens. Às nove e meia, ligou novamente.

Desta vez, uma mulher chorosa atendeu. “Rafael se acidentou” – ela respondeu, antes de soluçar desesperadamente. Ele que olhava sempre para os lados antes de cruzar as ruas com seu tuk-tuk. Que olhava duas vezes para compensar a falta de um olho bom.

“Acho que ele se descuidou. Acho que ele estava distraído.”

“Mas onde ele está agora?” – Morana perguntou à mulher, imaginando que se tratava, provavelmente, da mãe de quem muito ouvia falar. E recebeu o endereço de um hospital distante, periférico, onde só se tratavam os pobres e os desenganados, os que não podiam se refugiar. Desligou o telefone com o corpo metralhado de medo.

Eram quase dez horas. Às dez em ponto, Morana soltou um grito de dor, porque não sabia mesmo o que fazer. Ou sabia, mas não tinha como. Não tinha como. Às dez e vinte, viu no espelho o rosto de outra pessoa, uma pessoa melhor, e sabia que era hora. Então apanhou a bolsa, um pouco de dinheiro, o escapulário roto herdado da mãe, óculos noturnos, sapatos mais confortáveis, um guarda-chuva para emergências, uma coragem desconhecida.

Às dez e meia em ponto,  saiu de casa.

 

 

Published by fabianeguimaraes

jornalista assumida, escritora enrustida

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