Cor de rosa

*conto originalmente publicado na Revista Traços, em versão reduzida. Aqui está a versão integral.

 

Penso que é uma coincidência terrível. Que essa moça que me estende os braços com delicadeza e mostra a última grande novidade em babás eletrônicas se chame Virgínia. Eu li na plaquinha meticulosa, minúscula, que lhe colocaram agarrada à gola. Como se alguém nesse empório de luxos iniciais se importasse com os nomes de quem está ali apenas para servir ideias. Palavras de encorajamento em bandejas de prata. Eu digo que ficarei com o modelo mais barato, embora tenhamos dinheiro. Não sei o porquê.

Eles são treinados para não perguntar de quantas semanas estamos, se não queremos falar. Virgínia percebe a pressa, então desliza para o corredor do peito. Tetas reluzentes, penduradas nas paredes, dão as proporções do molde. Substitutas de silicone, com leite quentinho, de verdade, jorrando pelas veias de plástico. São 100% esterilizáveis, garante, e absorve todo o seu cheiro no primeiro uso. Se encomendar o leite direto de uma ama, o bebê nem vai perceber.

Eu passo direto, Virgínia entende. Inclina a cabeça com um sorriso falso. Ativista, estrangeira em próprio solo, posso ouvi-la computando. Um tipo de mãe rara.

Tudo ali é limpo e esterilizável. Lembro que o meu marido, em casa, pediu que eu só não comprasse o berço. Ele faz questão de construir um. Madeira rara, importada. Ele quer relembrar os tempos em que era um homem brutal, do campo, e derrubava árvores para moldar seus móveis. Agora não temos mais árvores para derrubar. E ele está contente por se lembrar de como era. Às vezes ele percorre o meu corpo dedilhando asperezas. E eu tenho certeza de que me imagina em lascas.

Virgínia estende os olhos de caramelo para a extensão da minha barriga, o meridiano medido a partir do meu umbigo, parece a ponto de explodir de curiosidade. Eu dei pouquíssimas informações para embasar nosso itinerário. Só disse que era uma menina, mas não queria que isso interferisse nas ofertas. Não queria nada que fosse demasiadamente cor de rosa.

Rosa tem cheiro de vômito.

Eu também não disse que ela chega em agosto.

 

Quiseram que eu descrevesse como era a experiência, com todas essas coisas que só eu sei sentir, e eu disse que tem gosto de sangue. Toda a coisa de carregar um outro ser humano dentro de você. Faz seu corpo ferver até a temperatura de um bule quente de água no fogo alto. Como a ferrugem que desgarra das paredes de ferro, lentamente, e a pressão que apita em algum lugar dentro da cabeça. Você parece que vai explodir de amor, até o momento em que realmente explode.

Eu posso falar dessas coisas agora, porque sou uma mulher respeitável, e estou autorizada a ter filhos.

“Eu conheci uma outra Virgínia uma vez” – não consigo evitar de dizer à mocinha, enquanto ela fecha a compra e me entrega sacolas de pano.

“É mesmo?”, ela pergunta. Alegremente, dobrando-se em uma melodia de falsete, desaparecendo pela janela (é mentira que está feliz ali).

 Sim. Ela não podia ter filhos.

 

Faz tempo. Éramos todas meninas do campo, matutas, mas eu sabia que queria ser mais, eu havia nascido para me descolar daquele horizonte empoeirado e laranja. Venenoso. O ar me rasgava os pulmões quando inventava de respirar os dias. Não perdi tempo quando me disseram o roteiro. Se você sair mais cedo, e subir no caminhão verde-oliva às cinco da manhã, em vez de te levar para colher feijão, podem te dar um emprego na clínica.

Não fiz perguntas, não era isso que cabia a nós. Meninas do centro. Tirei os sapatos, passei pela inspeção de piolhos, deixei que avaliassem com instrumentos gelados a distância perfeita entre os meus olhos, que esticassem a minha língua em busca de um sinal de infecção, e depois solicitassem que eu tomasse um banho, o mais gelado possível, e vestisse uma camisola de hospital. A água gelada me aperta os ossos, eu murmurei, e eles entenderam que eu era especial o suficiente.

Eu tinha longos cabelos pretos e cacheados, nessa época. Boca de avelã, uma beleza agreste, de deserto fabricado. Meus dentes não eram bons, mas tanto faz, porque eles pediam para você não sorrir. Se fosse possível.

Quando me disseram que eu tinha sido selecionada e me colocaram para esperar em uma salinha de poltronas peludas, tive medo. Medo, nessa época, era como engolir uma pedra de cal. Doía, no começo, depois se diluía, virava um pó branco, revestindo o coração de coisas ácidas. Ela chegou, caminhando como se também estivesse suficientemente nervosa. Mas era mais velha, quinze anos, e mais segura que eu.

“Eles disseram que você se parece comigo, estou lisonjeada”. Ela disse. Meu nome é Virgínia.

Ela não tinha envelhecido bem. Talvez a preocupação. Tinha no rosto uma placa de vincos e sulcos, a idade era um trator de colheita. Eu ia fazendo essas anotações mentais, toda tímida, depois ela pediu que eu partilhasse. Porque queria absolutamente tudo de mim.

Queria me ouvir falar da roça onde tinha crescido, dos meus irmãos desgarrados, os mortos em combate. Dos campos de feijão. Das coisas que eu sentia no céu da boca, mas não eram de comer.

“Adoraria que a criança mantivesse a sinestesia”, ouvi dizer que ela pediu ao médico.

Virgínia era cativante. Não era bonita como eu, mas logo percebi porque tinha sido selecionada: era sua versão mais jovem, mais bem acabada, porém menos inteligente. Ela era culta como os anos faziam valer. Lia um trilhão de livros e me falava de todos eles em um tom sério, professoral, porque queria que eu absorvesse a cultura. Eu amei tocar a literatura. As histórias de Jane Austen tinham cheiro de armários compridos e gosto de chá. Clarice era como um fio de aço afiado, passando entre os dentes. Alguns escritores me apunhalavam na nuca. Outros me deixavam com o coração em polvorosa.

Eu nunca soube onde ela morava, nem conheci o seu marido. Apenas o recebi em forma de líquido, milhões e milhões de pequenas lembranças dele nadando para dentro de mim após o apertar da seringa. Achei vergonhoso ter que abrir as pernas, mas o médico era o mesmo de sempre. Ele disse que eu era corajosa.

Todas as terças-feiras, eu e ela nos encontrávamos na cidade. Era importante esse contato, mas eu podia ter rompido, se quisesse, se não me sentisse bem. Como fazer isso, se Virgínia tinha esse jeito irresistível de me ensinar sobre tudo? Palestrando, lentamente, sobre as coisas que a minha educação não cobria. Mostrando que éramos muito diferentes, afinal de contas. E que ela sofria por não ter dentro de si um saco de carne capaz de abrigar outros mundos.

Um dia, eu devia estar no terceiro mês, me deu um telefone. É para que nós duas possamos nos falar, ela explicou. Eu tinha vergonha das minhas mensagens com a ortografia errada, mas ela dizia que não tinha problema, que via beleza nas minhas lacunas.

Virgínia sorridente. Amiga.

Por favor, Daniela. Me escreva se precisar de qualquer coisa.

Então eu escrevi. Depois daquela consulta em que fomos juntas, mas acabei por ser colocada em uma sala separada, e com auxílio de um alto-falante fizeram o coração do meu bebê disparar na sala ao lado. Para que Virgínia e o marido tivessem esse momento. O médico nem mesmo olhou para mim, enquanto transmitia o recado em ondas invisíveis. Eu posso saber o que é, sussurrei, agarrando-lhe o punho peludo. Ele não podia dizer, não estava autorizado, mas teve pena: é uma menina.

Eu vou te muita sodade dela, escrevi para Virgínia, naquela noite. Eu quero conhese ela.

Jamais recebi uma resposta.

 

Os encontros começaram a rarear durante a etapa final. Parecia que, lentamente, Virgínia começava a cortar o cordão umbilical que nos ligava. Em uma das últimas vezes em que nos vimos, uma sombra escura sobre as nossas cabeças, um gosto pujante de lama na garganta, ela tirou uma pequena paleta de cores da bolsa. Vários tons de rosa. É para o quartinho dela, sussurrou, como se partilhasse um segredo que eu não devesse saber.

Não consegui responder. Imaginei que horrendas aquelas paredes, refletindo o sol ao contrário e maquinando um futuro pré-estabelecido. Uma princesinha concebida para o estranho ritual da normalidade. E vomitei na lixeira a caminho da estação de metrô.

Eu não me lembro muito do fim. Houve sangue, é claro, um filete obscuro que começou manchando a calcinha e de repente jorrava de mim como se expulsasse impurezas. Então a dor, uma ligação dos meus pais ao médico, me levaram em um carro com estofado cheiroso. Por meio de um tubo de oxigênio eu tentava respirar, enquanto repetiam que não era a hora, e verificavam apressados o tamanho da minha fenda.

Eu temia perder o dinheiro. Era só isso que eu temia.

Virgínia chegou primeiro, eu pude vê-la de relance, cruzando a porta e analisando minha barriga que se desmoronava. Em pânico. Vai ficar tudo bem, Daniela, talvez ela tivesse dito. Ou talvez ela tivesse rasgado um cheque para me ameaçar pela pressa. Não era a hora.

Paredes com gosto de amônia. Uma dose de anestesia local para reduzir o peso da lombar. As mãos do médico dentro de mim, ríspidas, remexendo minhas extremidades. Não deixaram que eu enxergasse alguma coisa, mas pelo pano translúcido que improvisaram eu a vi. Um ratinho esmigalhado com rosto vermelho que berrava, berrava alto. Seu choro que me rasgava os braços. Lembrei-me do som de um sino alto, reverberando pela eternidade.

Às vezes eu ainda a escuto chorar. Quando meu marido faz bagunça em casa e remexe nos pratos. Quando deixa um tilintar de talheres ressoar pela sala. Todo ruído agudo, metálico, me dói nos cantos da boca. E eu sinto uma saudade desesperada da minha filha.

Mas todas essas coisas ficaram no passado, é claro, porque o contrato estava inteiro e bem vigente. Vieram buscar um pouco de leite em garrafas de vidro e depois partiram, sorridentes, felizes pela minha contribuição. Recebi trinta e cinco por cento do acordo, e já foi um dinheiro significativo. O suficiente para deixar a roça e os campos de feijão. Para alugar um quartinho na cidade, ingressar na faculdade de direito, vestir-me bem e tornar-me um ser humano respeitável. Com o tempo, a gente até se esquece. Eu sei porque nunca contei ao meu marido. Se não contei, não é mentira.

 

Não sei se conseguirei amar essa nova menina. Não queria tê-la, mas ele insistiu. Disse que não se sentiria bem se partisse da vida sem deixar um pedaço seu. Eu já tenho um pedaço meu espalhado em algum lugar, com oito anos de existência miúda, mas é melhor deixar quieto.

Penso nela. Se toma sorvete com o nariz franzido e sente o corpo congelar. Se a chuva tem cheiro de terra. Se odeia tocar nas coisas geladas porque sente tudo nos ossos. Eu me pergunto se ela é uma menina esperta que sonha com texturas de veludo. Se faz desenhos para tentar explicar o jeito como ela é tudo ao mesmo tempo, uma experiência sensorial, e mostra aos amiguinhos para se gabar de poder dizer que provou o sol. Eu me pergunto.

Published by fabianeguimaraes

jornalista assumida, escritora enrustida

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